Segunda breja pro Hackers 2 Hackers Conference

Quando comecei a fazer cerveja em casa, a mais ou menos um ano atrás, nunca imaginei que em tão pouco tempo teria tantos fãs das minhas criações.
A primeira cerveja “oficial” foi a Hops 2 Hackers Ale, uma homenagem ao evento de InfoSec Hackers 2 Hackers Conference, ou H2HC para os mais intimos.

Daí pra frente tiveram as cervejas para o Silver Bullet (Russian Imperial Stout) e You Shot The Sheriff (Belgian Blonde e Belgian IPA). Além de outras levas de teste que ficaram restritas aos amigos e familiares.

Nesse meio tempo decidi que as cervejas que fazia mereciam um espaço dedicado, já que a autoria do blog é dividida com outros grandes amigos bebedores de cerveja. Então a Cervejaria Bräu von Hacker nasceu.

O nascimento do projeto dedicado exclusivamente à produção de cerveja veio num momento bem conturbado de stress e mudanças. Mas dizem que esse é o canteiro da criatividade, certo? Saí de São Paulo, desempregado, sem nenhum plano de negócios e voltei para Ribeirão Preto.

Estava empolgado, o tal do Polo Cervejeiro saindo na mídia e tudo mais, acreditei que seria muito mais fácil produzir cerveja por aqui. Coitado de mim… O pessoal ainda tem seus grupinhos fechados e faz cerveja para ser melhor que os outros. E eu só quero fazer uma cerveja foda pra caralho! Não quero ser a maior, melhor, mais hype ou coisa do gênero. Só quero que a pessoa que esteja bebendo a minha cerveja solte aquele famoso: Puta que o pariu! Seguido de um: Que cerveja foda!

E depois desse lenga lenga todo, chegamos em Outubro de 2012, a 20 dias de ocorrer o Hackers 2 Hackers Conference e eu já havia desistido de fazer os 200 litros que havia combinado com o @bsdaemon e o @filipebalestra.

Tentei negociar com diversas cervejarias a produção dos 200 litros, mas muitas delas colocaram impecilhos para a produção como preços elevados, limitações de receitas e outras loucuras… Outras cervejarias me ignoraram completamente.

Estava prestes a aceitar a derrota quando recebo um OK da Cervejaria Premium, localizada em Frutal/MG, eles abriram o laboratório para que pudessemos criar as receitas mais loucas que quisessemos. E quase estourando o prazo!

A cerveja que decidimos produzir foi a Manfred von Richtofen, algo como uma Scottish Ale entrando em guerra com uma Märzen, misturando ingredientes ingleses e alemães, como se o Barão Vermelho (não o do Frejat) parasse em um Irish Pub e pedisse a sua melhor cerveja.”

Um dos rótulos mais legais que já fiz

Enfim, dia 02/10 peguei uma folga no trabalho e fui até Frutal brassar os 200 litros da Red Baron Ale. Vou te contar, ô estradinha do inferno! Muitos caminhões, sem acostamento e com várias crateras. Mas cheguei bem e já topando de cara com os tanques de serviço da cervejaria. Coisa linda!

Sem perder muito tempo já cheguei até o cervejeiro que iria me acompanhar no processo. A primeira coisa que o Carletti e o Elton (os dois “coitados” tiveram que aguentar as minhas loucuras o dia todo) me mostraram foi o equipamento que usariamos na produção. É um sistema semelhante ao HERMS, mas com steroids. 🙂

O volume de brassagem é de 100 litros, então teria que dividir a minha receita em duas levas, até aí tudo bem, até a primeira cagada do dia aparecer… Na hora de usar o BeerSmith para escalar a receita de 20 para 200 litros, algumas coisas sairam fora do esperado e só descobrimos isso durante a filtragem.

Olha aí as crianças indo pra moagem

A quantidade de malte especial Carafa II foi um pouco acima do esperado, o que ao invés de ajudar a dar o tom avermelhado à cerveja,  deixou a menina com uma linda cor de Stout! hahahaha Enfim, que comecem as rampas (receita completa no final do post).

Água na temperatura certa, jogamos o malte pra dentro da “panela” e não tem mais volta!

A segunda merda aconteceu durante a filtragem. Como o equipamento era novo, ninguém conhecia direito as limitações da bomba e tubulações. E a galera da Cervejaria Premium não está acostumada com esse tipo de receita que leva uma quantidade imbecil de ingredientes. Resumindo, entupiu tudo duas vezes. 🙂 Mas conseguimos resolver a encrenca e a filtragem terminou. Tem até video.

Durante a filtragem já tivemos uma ideia de como a cor dessa cerveja ficaria. Durante a fermentação é comum que a cerveja se clarifique um pouco, mas a tonalidade iria permanecer nesse mogno.

Próximo passo foi a fervura e adição dos lúpulos. Mais uma vez ficamos enrolados com o equipamento e a fervura ocorreu de uma forma um pouco agressiva demais! Todo o lúpulo que foi adicionado ficou nas paredes da “panela”, deixando uma dúvida se o amargor sairia como o planejado.

Aceitamos a derrota do possível amargor baixo e tocamos o barco. O resfriamento foi muito legal. Normalmente, com o meu equipamento, eu levo 40 minutos para reduzir de 90°C para 30°C e depois vai mais um tempão para chegar a 25°C e inocular a levedura. No lab da Cervejaria Premium, usando etanol resfriado para o chiller de placas, ao invés de água, chegamos a 18°C em menos de 20 minutos. 😀

Pena que mais uma vez, por não estarmos acostumados com o equipamento, notamos que muito do cold break foi pro fermentador, dá pra ver na imagem abaixo… O mosto ficou em repouso por alguns minutos e conseguimos ver o quanto de lúpulo e proteínas foram pro fermentador.

Olha a cor do mosto logo depois de resfriarmos. Não tá vermelha como queriamos, mas achei muito bonita.

O mosto foi para o fermentador, as leveduras foram inoculadas (decidi usar a S-04 e a US-05 por uma conversa maluca em um forum de homebrewers), só faltava deixar as meninas fazerem seu trabalho.

Pra quem começou em um balde de maionese, ir pra um fermentador desse é uma evolução e tanto!

Uma semana depois, ou melhor, quase 80% de atenuação depois, voltei à Cervejaria Premium para envasar a produção (2 dias antes da Hackers 2 Hackers Conference). Tirei um pouco do fermentado para provar a belezinha. Estava como queria, uma mistura maluca de estilos, parecia Bock, Strong Scotch Ale, Märzen… Enfim, estava muito boa e atendia à ideia proposta.

Chegou o dia da H2HC, coloquei todos os barris no carro, juntei a família no pequeno espaço que havia no Golzinho e fomos pra São Paulo. O desafio foi achar um lugar na Penha/ZL pra deixar o carro guardado durante a noite. Muito arriscado largar um carro cheio de cerveja numa rua de um dos bairros onde mais se roubam carros em São Paulo.

Chopeira alugada, e bar montado. Começamos a servir a cerveja às 9:30 da manhã do Sábado. A expectativa era que durasse os dois dias, já que os 20 litros de Russian Exploit duraram os dois dias da Silver Bullet. Mas o @bsdaemon fez uma aposta, disse que a galera mataria os barris antes do almoço.

@mentebinaria ajudando a acertar a regulagem da chopeira. Ô trabalho difícil. E também estava ali a última garrafa de Ramon, que foi leiloada durante o evento.
O primeiro copo saindo (ainda regulando a chopeira) e a bandeira que deu origem ao @thepiratesbar 🙂

Enfim, a cerveja acabou as 14:30 e, pelo jeito, a galera gostou bastante. 🙂 Muita gente tirou foto do bar, das brejas e eu gostaria de coloca-las aqui. Principalmente das fotos da galera ancorada no bar e da fila que formou (massagem no ego :)).

Por enquanto só o camarada Mauro Donati mandou as suas, aproveitem e curtam as fan pages dele e da Mell Magazine. O cara manda bem.

Ano que vem teremos outras intervenções nas conferências. A programação é YSTS, BHAck, H2HC e Silver Bullet. Tomara que eu consiga! 😀

Ah, e aqui está a receita:

Maltes:

0,2kg – Carrafa II Especial
2kg – Carared
2kg – Melanoidina
2kg – Vienna
2kg – CaraHell
25kg – Pilsner
Lúpulos:
110g – Northen Brewer (60 min)
80g – Perle (10 min)
Levedura:
60g Safale US-05
60g Safale S-04
Rampas:
30min a 50°C
40min a 64°C
20min a 70°C
10min a 76°C
Fermentação:
7 dias a 16°C ou até que a fermentação termine.
Redução da temperatura a 8°C para maturação por 15 dias (quanto mais tempo de maturação melhor).
Ah, essa receita está registrada como Creative Commons. Então, se for usar a receita em algum lugar ou remixar ou coisas do gênero, favor compartilhar o resultado e os créditos! 😀

Creative Commons License
Red Baron Ale by Fio Cavallari is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 3.0 Unported License.
Based on a work at http://beerhacking.com/2012/11/18/segunda-breja-pro-hackers-2-hackers-conference/.

Publicado por Fio Cavallari

Analista de segurança, pesquisador de malwares, guitarrista ruim e imitador do Silvio Santos.

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6 comentários

  1. Parabéns!!! É assim mesmo, de pouco em pouco e passando os percalços e obstáculos, mantendo a filosofia e os objetivos você vai chegar lá, esse foi o primeiro passo.
    Não pude experimentar a breja, mas sei que estava espetacular!!!
    Ano que vem vou voltar a toda com as brassagens e uma ideias malucas, vamos trocar umas figurinhas e brejas é claro!!!
    Espero que você participe do próximo concurso das Acervas por aqui e possamos prestigiar outra breja excelente!!!

    1. Valeu Regis!!
      Cara, acho que só consigo entrar em concursos com specialty beers ahhaahhahaa Nenhuma das minhas receitas clássicas está madura o suficiente. 🙂
      Quero só ver tuas brejas ano que vem! 😀

  2. Além do arrependimento óbvio por ter perdido a H2HC, saber que não estava lá prá provar essa cerveja me deixou ainda mais puto. Qdo vc comparou ela com “Marzen + Scotch Ale” vc quis dizer que usou leveduras Ale e Lager na mesma receita? Que esquisito… Confesso que não sei como isso poderia dar certo, mas pela reação da galera tu acertou na mosca. Parabéns!

    1. Então, usei duas leveduras ale mesmo, a ideia era usar leveduras que se complementassem. Surgiu numa conversa entre cervejeiros caseiros malucos (acho redundante falar isso), onde a ideia seria fazer uma cerveja seca, crispy e que ainda tivesse alguns esteres.
      Mas quis comparar o sabor da breja mesmo. Muita gente perguntava se era bock, outros diziam que era Stout ou uma Red Ale mais forte. Essa foi a grande brincadeira, desafiar o que a galera conhecia de cerveja e, quando viessem me perguntar o estilo, respondia que não tinha um definido. 🙂
      A experiência foi bem legal, mas não sei se repetiria hehehehehe

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