Aprendendo a beber…

Lembro de quando tinha uns 10 anos de idade e ouvia a conversa dos adultos durante as reuniões de família. Meu avô dizia várias vezes que Fulano ou Siclano não sabia beber, que bebendo daquele jeito era um desperdício de bebida e outras coisas do gênero.

Na cabeça de uma criança era inconcebível alguém não saber beber! Poxa, eu lembrava da transição mamadeira pra caneca dos Super-Amigos, será que eu teria que passar por isso tudo de novo? Preocupado com esse futuro assustador fui tirar a dúvida com meus pais. Isso também não ajudou muito, já que aparentemente adultos tomavam outras bebidas, tão complexas que mereciam técnicas alternativas de consumo. Estava decidido, nunca beber essas coisas, ficaria com o guaraná e sucos que já estava lindo.

Dois anos mais tarde, resolvi dar o primeiro gole num copo de Chopp Antártica (na época que o Pingüim em Ribeirao Preto ainda tinha a conexão direta com a fábrica). O amargor daquela bebida era tão forte pra mim que a vontade que tive foi de cuspir no chão e ofender o garçom por trazer tal bebida pra mesa. Meu pai rindo da cena comentou: Filho, daqui uns anos, esse amargo vai ser uma delícia, pode apostar! (nem preciso dizer que ele ganhou a aposta)

Mais velho e já suportando o amargo da cerveja, e por que não dizer consumindo outros tipos de bebidas alcoólicas, o sentido de aprender a beber mudou. Eu já sabia como lidar com o sabor, agora precisava aprender outra coisa: autocontrole.

Durante a faculdade exercitei muito a arte de beber absurdamente e não vomitar até a alma, batia no peito dizendo que sabia beber e ria dos que passavam mal. Até chegar a minha vez de dar vexame em casa. Continuei a tentar aprender a beber, ou resistir ao álcool, por mais alguns anos. Acreditava que esse era o aprendizado final.

Só depois de formado, e de fazer outros amigos, descobri que essa brincadeira de resistência não tinha nada a ver com saber ou não beber. As lembranças de infância onde via meu avô tomando seu cognac legitimamente francês, cheio de cerimonias, quase um ritual vinham à tona e começavam a fazer sentido.

Beber já não era apenas ingerir álcool até praticamente perder a consciência, mas apreciar a bebida e todo o trabalho, inspiração e cuidado gastos por quem elaborou a receita, cozinhou, filtrou, aguardou a fermentação pacientemente, engarrafou e acreditou que outras pessoas também iriam gostar da sua criação.

Aprender a beber tem um grande “problema”, você nunca mais vai curtir da mesma forma aquela bebedeira da época de faculdade, e com certeza vai gastar mais em 3 garrafas que nos engradados de cerveja “genérica”, em vodcas vendidas em garrafas de plástico ou garrafões de vinho que parecem mais suco de uva misturado com álcool de cozinha.

Hoje, 20 anos depois, entendo o que meu avô dizia sobre não saber beber, entendo suas bebidas diferentes e seus rituais quase que ensaiados. O amargo das cervejas agora tem uma razão e agora a vontade não é apenas de beber, mas de compartilhar isso com os amigos.

Um brinde aos #BebedoresDeVerdade!

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: